As freiras ensinavam que o corpo era templo e o desejo era tentação. Levei um bom tempo pra entender que tinha aprendido a lição ao contrário.
Cresci no Leblon. Casa boa, colégio católico, motorista particular que me levava para todo lado. Toda manhã, quando eu acordava, a empregada já tinha feito ovo quente ou amassado abacate, sempre um dos dois, porque minha mãe achava que eu era magra demais. Me queria sempre arrumada, me vestia bem. Meu pai me dava livros de presente. Quase nunca brinquedos. Uma menina bem-educada, de boa família, exatamente aquilo que se via de fora.
Tinha treze anos na primeira vez que descobri o que esse desejo era.
Foi numa tarde qualquer, na casa de uma amiguinha que morava perto. Era um dia chuvoso. Em vez de brincar na rua, fomos pra dentro, pra garagem. Dava pra ouvir a chuva caindo. A luz era amarela, meio fraca, daquelas lâmpadas que ficam acesas o dia inteiro mesmo sem ninguém usar. Piso de azulejo amarronzado, tipo caramelo, que era moda na época. De um lado, a parte dos carros. Do outro, um depósito, uma dessas salas que acumulam o que não tem lugar em casa, caixas, ferramentas. Entramos por curiosidade.
E vimos as revistas. Não estavam escondidas em caixa nenhuma. Estavam na prateleira, à vista, como se fossem livros de receita ou catálogos velhos. Dessas que circulavam livremente nos anos 80, mulher pelada na capa, contos eróticos dentro, páginas e mais páginas de gente sem roupa.
Eu e minha amiga pegamos uma delas e saímos do depósito. Fomos onde os meninos estavam, e folheamos juntos.
Lembro da imagem da mulher nua.
Ficava olhando.
Não conseguia tirar os olhos dela.
Foi ali, com a atenção presa na foto da mulher, que um dos meninos falou sobre um amigo que não estava presente:
— Sabe o Fulano? Ele dá o cu.
Perguntei o que era. Sem vergonha, sem hesitar.
— Dá o cu. Pra colocarem coisa dentro.
— Colocar o quê?
Não fazia sentido nenhum.
A pergunta não saiu da minha cabeça nos dias seguintes.
Treze anos. Colégio de freira. Aula de balé às terças.
Eu também queria dar o cu.
Todo dia eu sabia o que ia acontecer.
Riam porque eu era branca demais. Comecei a ir de meia-calça pro colégio porque a meia era mais escura que eu, e era isso que eu queria. Aí passaram a rir porque eu usava meia-calça. Tentei de calça comprida também. Diziam que eu estava escondendo as pernas mesmo assim. Não tinha saída: o problema nunca era a pele nem a meia-calça. O problema era eu. Eu mesma, sem graça.
Eu estava na biblioteca do colégio, pegando um livro. Numa das mesas, duas meninas de outra sala conversavam. Uma delas me viu. Falou alto pra outra, pra eu ouvir:
— Sabe a Anna? Sabia que ela vem de meia-calça pro colégio pra esconder as pernas?
Fiquei entre as prateleiras até as duas irem embora. Eu estava só procurando um livro.
Às vezes eu levava o lanche para o banheiro porque parecia mais fácil do que atravessar o recreio inteiro sem ter com quem conversar, sem ter com quem sentar, sem ter para onde ir. Comia em pé, perto da pia. O espelho estava bem ali.
Eu nem via.
Risada. Gente brincando. Conversa que não era minha, vindo do pátio. Meninas entravam no banheiro, se arrumavam no espelho, saíam de novo.
Ninguém parava pra me olhar. Eu estava no meio delas e não estava em lugar nenhum.
Sentava no fundo da sala, na última fila. A pessoa mais próxima ficava duas ou três fileiras à frente. Os meninos não me notavam. E quando as meninas se juntavam, nunca parecia haver lugar pra mim.
Lá na frente, a aula seguia normal. E eu também, aparentemente. Aquelas carteiras de mesinha escondiam tudo: mão por dentro da calça, imóvel da cintura para cima, enquanto o resto da sala copiava matéria. O calor subia no rosto, os olhos fixos em algum ponto, sem ver nada. Gozava ali, sentada, sem mover um músculo. Espiava ao redor de vez em quando, só pra ter certeza de que ninguém tinha visto. Nunca tinham.
Hoje sei que não era tesão. Eu podia esperar chegar em casa, trancar a porta do quarto, fazer em paz. Não esperava. O que eu queria era fazer no meio de todo mundo, com a freira explicando matéria a dez metros de mim. Bem ali, e ninguém ia saber.
Eu pensava: meu Deus, o que tem de errado comigo. E mesmo assim continuava.
Nos fins de semana, quando meus pais saíam, eu ia direto ao quarto deles. Guardavam livros eróticos na prateleira de cima de um armário branco. Para chegar lá eu precisava subir na cama, ficar na ponta do pé, me esticar toda. Alcançava só os primeiros, os que estavam embaixo eu não conseguia pegar sem fazer bagunça, e tinha muito medo que minha mãe percebesse que alguém havia mexido. Ia direto nas partes boas, as páginas que eu já sabia de cor, sem precisar nem procurar. Lia, relia, e o corpo respondia.
Até o dia em que abri o armário e a prateleira estava vazia. Nunca falamos sobre isso.
Pouco tempo depois, procurando um esmalte no banheiro dela, encontrei um vibrador. Ali na gaveta, sem cerimônia. Bege, plástico duro, liso, a ponta arredondada. Peguei na mão sem saber o que era, virando de um lado pro outro, tentando entender pelo peso, pelo formato.
Minha mãe tinha aquilo.
Então entendi. Tinha forma, tinha nome, tinha existência fora da minha cabeça. Ela não era tão diferente de mim quanto eu pensava.
Fechei a gaveta. Mas não esqueci.
Depois de perder a virgindade, aquele objeto virou meu segredo. Usava com frequência.
Um dia não estava mais na gaveta. Procurei no banheiro inteiro. Nada.
Fiquei remoendo se ela tinha percebido que eu mexia e trocado de lugar por isso. Vivia com medo da pergunta.
Nunca mais vi. Sobre isso, nenhuma palavra.
Bruno e Bernardo eram gêmeos, da minha sala. Quase impossível distinguir um do outro. Eu desejava demais pra confundir.
Eu tinha treze anos e gostava dos dois. De qualquer um que me quisesse.
Nos anos 80, a moda era festa americana: cada um levava alguma coisa, e a noite virava conversa, paquera, dança. Daquela vez foi num apartamento pequeno de uma amiga, em Copacabana. As meninas sentavam de um lado, os meninos do outro. Tocava "Take My Breath Away", a música daquele ano.
O Bruno veio.
— Você quer dançar comigo?
Era assim que os meninos perguntavam.
Estávamos no meio de todo mundo quando ele beijou meu pescoço, devagar, um arrepio que não passava.
Foi aí que ele falou baixinho, perto do meu ouvido, pra ninguém mais escutar:
— A gente podia ficar, sem ninguém ver.
Dançamos até o fim da música. Eu não entendi o que aquilo queria dizer. Não sabia que isso existia, ficar com alguém escondido, sem ninguém saber. Eu gostava tanto dele, meu corpo ainda não tinha se acalmado. E mesmo assim não perguntei nada. Perguntar era admitir que eu não sabia.
Recuei.
Não ficamos. Não naquela noite, não nunca.
Ele começou a namorar a Simone, uma das poucas amigas que me restavam. Ela tinha seios. Eu, sem nenhuma curva ainda.
Ela sabia que eu gostava dos gêmeos. Quando começou a namorar o Bruno, não tinha mais o que fazer: o Bruno estava fora, então passei a gostar só do Bernardo.
Bastava trocar de nome.
Que casal lindo, eu pensava. Sem raiva, sem inveja. Eu achava mesmo. Eles no centro da roda, eu um passo atrás. Nunca me ocorreu que aquele lugar pudesse ser meu. Mas sei o nome da rua deles de cor até hoje.
O Rodrigo chegou no ano seguinte, primeiro dia de aula. Aluno novo, na minha sala.
A sala onde eu desaparecia virou o lugar onde eu mais queria estar.
Quase sempre chegava atrasado. Eu olhava pro relógio redondo em cima do quadro, depois pra porta, depois pro relógio de novo. Meu dia não começava na primeira aula. Começava quando ele entrava.
Ele surfava. Cabelo parafinado, pele bronzeada. Usava óculos de grau. Uma vez, na praia, tirei uma foto dele surfando e mandei revelar. Guardei na gaveta do meu quarto. A posição do corpo, a prancha, a forma da onda. Não tive o Rodrigo inteiro. Tive o da foto, que era só meu. Tive a data de nascimento, o prédio onde morava, o andar.
No meu baile de debutante, ouvi meu nome no microfone, o salão inteiro de olhos em mim.
Eu, que vivia escondida pra não ser ridicularizada, naquela noite queria isso. Pela primeira vez, ser vista era elogio, não piada.
Meu vestido era branco, todo bordado de pérolas. Eu estava linda. Sabia disso.
Depois da valsa com o pai, vinha a valsa com o convidado especial. Era o lugar do namorado. Eu não tinha namorado.
Chamei o Rodrigo.
Ele namorava a Júlia. Eu sabia. Chamei mesmo assim.
Ele foi.
Dançamos. Eu, que comia lanche escondida no banheiro, no meio do salão com ele. Tinha uma foto daquela noite. Não tenho mais.
Alguns dias depois, na escola, ele veio me contar: a Júlia não havia gostado da história do baile. Fiquei satisfeita. Eu não gostava dela porque ela tinha o Rodrigo. Ela não gostava de mim porque sabia que eu o queria. E eu tinha plantado uma dúvida nela.
Achava que era só esperar. A Júlia era detalhe.
Umas duas semanas depois, fui ao apartamento dele pela primeira vez.
O quarto era na dependência de empregada, pequeno, nos fundos, uma cama de casal. Toda vez que eu ia, ele colocava o disco do Lulu Santos. A música vinha baixinha da sala.
Estávamos em pé, ao lado da cama. Ele tirou os óculos. Me beijou.
Naquela época era costume trocar agendas. Você emprestava a sua e a pessoa escrevia um recado. Dei a minha pra ele. E fiquei esperando.
Ele devolveu no pátio do colégio, no início da aula. Eu sei o lugar exato. O pátio estava cheio e parecia que não tinha mais ninguém ali.
Uma frase em cada página, sempre do lado direito.
Enfiei direto na mochila. Não abri na frente dele. Eu não queria demonstrar. Guardei a agenda e guardei a vontade, e carreguei as duas o resto do dia.
Só li sozinha. Folha por folha, como quem não quer que acabe:
Nunca vou esquecer.
Foi tão bom te conhecer.
Eu só não entendo tudo isso.
Essas brigas.
Continuamos assim.
Nessas brigas.
Eu até que te entendo.
Mas estás errada.
Totalmente errada.
Vê se dá um jeito.
Li tudo. Reli. Reli de novo. Não mostrei pra ninguém.
E pensei: ele gosta de mim.
Era uma bronca.
Eu li uma declaração de amor.
No ano seguinte mudei de colégio, e ele aparecia na saída. Ficávamos nos beijando na calçada, eu com quinze anos, ele ainda com a Júlia. Eu não pensava nela. Pensava: ele veio me ver.
Ele sumia e voltava. Sumia e voltava. Com ela sempre, comigo às vezes.
Eu nunca fui namorada.
Nunca fui nada com nome.
Mas estive lá o tempo inteiro.
Do jeito que uma assombração está.
Guardo as frases da agenda de cor até hoje. O resto não tenho mais.
Já sabia desejar. Ainda não sabia ser vista.